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É a história de um anjo triste.
     Ele anda num jardim, desde infinitamente.
     O jardim é imenso, sem cerca. A grama são chamas. As macieiras são ouro.
     Quando alguém morde uma fruta, um dente se quebra, mas logo nasce outro.
     De vez em quando, o anjo ergue os ombros, perde algumas plumas, suspira profundamente: sempre a mesma coisa, que tédio.
     Decide então viajar ao exterior. Destino: Terra.
     Oh, não por muito tempo. Um século ou dois.
     Escolhe o meio de transporte mais rápido: a dor, que do céu à Terra caminha na velocidade de um raio.
     Vai viajar, portanto, numa lágrima.
     Ei-lo agora numa nuvem, alguns instantes antes da tempestade.
     A queda começa, ele desmaia.
     Acorda.
     Diante dele, um mato seco, sem grama.
     Percebe onde está: no olho úmido de um cavalinho. Que lamenta sua sorte, sonha com pastos eternos, imensos, sem barreiras.
     Quem passa olha o magrelo animal. Riem do pobre bicho, que come uma maçã podre.
     Não veem: enganchadas nos ramos de uma árvore, estão suas duas asas, desplumadas.

Tapas e Beijos
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