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    Se em mim existe um talento digno de respeito, nesse caso eu lhe confesso, à sua pureza de alma, que não o respeitei até aqui. Sentia em mim esse talento, mas formara o hábito de julgá-lo medíocre […]      

Durante os cinco anos de minha vagabundagem nos jornais, acostumei-me a considerar os meus trabalhos com desdém, e comecei a escrever a toda pressa! Esta é a primeira razão [de minha inteligência]. A segunda: sou médico e vivo mergulhado na medicina até o pescoço. O provérbio sobre as duas lebres que não podiam correr ao mesmo tempo não impediu ninguém de dormir tanto quanto eu… Até aqui tratei o meu trabalho literário com extrema leviandade, com negligência, sem refletir. Não me lembro de um só de meus contos sobre o qual me tenha debruçado mais de um dia e esse O Caçador que lhe agradou, escrevi-o numa casa de banhos! Como os jornalistas rabiscam seus textos, da mesma forma escrevo meus contos: maquinalmente, numa semi-inconsciência, sem me preocupar com o leitor nem comigo mesmo […]. Esforçava-me apenas para não usar nesses contos imagens e quadros que me são caros e que, Deus sabe por que, guardava zelosamente.
     […]
     E eis que me cai do céu a sua carta […]. Senti então a necessidade absoluta de me deter, de sair da rotina em que me havia enterrado.
Vou livrar-me do trabalho precipitado, mas sem pressa. Não me é possível sair rapidamente do atoleiro em que me encontro. Prefiro, sim, passar fome, como já me aconteceu, mas não se trata apenas de mim […].
     Toda a esperança está no futuro. Estou com 26 anos. Talvez ainda tenha tempo de fazer alguma coisa, embora o tempo passe tão depressa […].
     Desculpe esta longa carta e seja condescendente com um homem que, pela primeira vez na vida, ousa conceder a si mesmo a alegria de escrever a Grigorovitch.

Tapas e Beijos
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